Dominik Mênem se dirigiu ao balcão de informações, buscando saber onde iria.
__Bom dia! Por favor, a senhora sabe se o Dr. Geovanne Duarte está no hospital hoje?
__Sim, ele trabalha hoje. Só que no momento Dr. Geovanne está atendendo no ambulatório e já deve estar quase terminando. Ele tem que passar aqui pra pegar alguns papéis.
__Por favor assim que ele voltar, poderia dizer a ele que Dominik Mênem o está esperando?
__Sim, claro.
Agradeceu com um sorriso extremamente simpático o jovem causídico e se dirigiu aos assentos do salão de espera. Sentou-se na primeira fileira da frente a televisão de 29 polegadas que passava um daqueles programas matinais, de fofocas.
Com o intuito de fazer o tempo passar, começa a se entreter com um joguinho no celular.
De repente ao seu lado, senta-se uma senhora muito bem vestida, de óculos escuros, bem maquiada. Num ato mecânico de cumprimentar com um sorriso qualquer pessoa que se senta ao lado, ele sorri e ela retribui.
Ao voltar a se entreter com o celular, Dominik se lembra quem é aquela senhora. Conhecia de fato aquela senhora, apenas de vista é claro, mas conhecia. Sabia quem era ela.
Quando voltou a se concentrar no jogo, escutou alguém o chamando.
__Dominik! - disse o homem de jaleco do outro lado do balcão.
O médico faz sinal para o jovem se dirigir para o corredor ao lado do balcão. O jovem se levanta e vai ao lugar indicado. A senhora ao seu lado, agora fala ao celular, com o semblante de preocupação.
Uma porta lateral ao balcão se abre e Dr. Geovanne surge.
__Tudo bom, Doutor?
__Ótimo e você, Dominik?
__Tudo bem graças a Deus. Escuta Doutor, deu tempo do senhor analisar os exames e o prontuário médico da minha avó?
__Sim, sim. Não se preocupe. O que houve foi apenas uma pequena alteração na frequência cardíaca, em decorrência mesmo da própria idade dela. De qualquer forma já estou receitando uma nova medicação, pra ela só controlar a pressão.
__Ótimo. Sabe como é né? Meus pais estão viajando, e meu pai me liga todo dia querendo saber notícias – disse o jovem advogado.
A senhora sentada no saguão de espera, desliga o celular e se dirige aos dois homens conversando no corredor.
__Se quiser passar aqui mais tarde e ...
__Com licença. Desculpa interromper.
__Claro, Vânia! Pois não.
Dominik com um sorriso consentiu.
__Eu só gostaria de saber se o Senhor vai fazer algum exame na Rafa hoje?
__Sim..mas só no fim da tarde. Depois do horário de visitas. Hoje eu já fui lá, dei um alô pra ela. Ela está bem disposta.
__Ah tá..muito obrigado doutor.
Vânia voltou para o lugar aonde estava sentada e começou a fazer uma ligação no celular.
__Mas Dominik... faz o seguinte, se der passa aqui mais tarde, ali pelas 16:00 ou amanha nesse horário pra você pegar comigo a receita. Pode ser?
__Beleza. Melhor do que isso, só dois disso. Então, Dr Geovanne, tenha um bom dia e muito obrigado.-concordou brincando e agradecendo o advogado.
__Eu que agradeço! Até mais.
Começo a andar em direção a saída mas parou de repente. Sentia que algo o puxava. Como se uma força alheia estivesse o impedido de ir embora. Deu meia volta e retornou à sala de espera. Vânia ainda estava lá sentada, foliando uma revista.
__Senhora?
__Pois não!- respondeu Vânia com um sorriso.
__Desculpe incomodar, mas a senhora não é mãe da Rafaela?
__Sim...sou sim.
Antes que Vânia perguntasse qualquer coisa ele continuou.
__É porque quando vi a senhora, tive a impressão que a conhecia de algum lugar, aí quando a senhora foi conversar com o Dr. Geovanne, vi perguntando a ele sobre ela. Eu estudei com ela anos atrás e muito tempo que não há vejo. Lembro de já ter visto a senhora e sua filha juntas. Por isso perguntei. Ela tá aqui no hospital?
__Bem... ela está internada aqui - agora com a voz triste.
__Nossa!!! Mas o que ela tem?
__Câncer.
__Mas....é...é...nossa...me desculpe, é que eu fiquei um pouco atordoado com essa notícia. E como é que ela está? Mas ela está melhorando né?
__Olha... hmm...ela está fazendo sessões de quimioterapia. Houveram algumas complicações nas primeiras sessões e os médicos acharam melhor mantê-la internada.
__E há quanto tempo ela está aqui?
__Três semanas.
__Meu Deus!- respondeu Mênem, colocando a mão na testa assustado.
Ainda assustado com tudo isso que acabara de ouvir, Mênem escutaria o improvável mas adiante.
__Quer ir vê-la?
__Eu?...Ah...não sei...acho que ela não vai se lembrar de mim. Estudei com ela há muito tempo atrás e tem mais ou menos uns 10 anos que não a vejo.
__Eu te peço. Vamos lá, garanto que ela vai gostar.
__Não sei.
__Olha moço....qual o seu nome?
__Dominik.
__Olha Dominik, seria muito bom você ir lá, porque ela precisa de apoio. Qualquer pessoa que vá lá, que converse com ela, que sabe..... que por instantes que seja tire a cabeça dela dos maus pensamentos, será bem vindo! E por isso eu te peço, por favor, vamos lá? Eu te peço. Talvez ela se lembre de você.
__É... pode ser. Vamos.
__Ótimo.
Começaram a descer a rampa que dava acesso ao setor central do hospital. Ao final do percurso passaram pelo jardim interno do hospital, bastante florido, com inúmeras flores. Ao passar na porta da lanchonete, Dominik parou.
__Senhora!
__Por favor....Vânia.
__Tá bom.-respondeu Dominik com um sorriso amarelo. __Será que a Senhora se importa de esperar um minutinho aqui enquanto eu vou ali na lanchonete rapidinho.?
__Claro.
Ele vai até a lanchonete, aponta alguma coisa no balcão para a atendente. A moça abre a portinha de dentro do balcão e pega o que ele queria. Ele paga, pega um guardanapo em cima de uma das mesinhas da lanchonete e enrola nele o que acabara de comprar. Caminha-se de volta ao encontro de Vânia.
__Vamos?-disse Vânia.
__Sim.
Continuam a descer as rampas do hospital. Era a hora mais movimentada do hospital, tirando o horário de visitas. Faxineiras descendo e subindo com carrinhos de limpeza. Enfermeiros de um lado para o outro, de quarto em quarto para trocar os lençóis, toalhas e fazer a higienização necessária.
__Qual o quarto dela?-perguntou o jovem.
__É o 105. É quase no fim daquele corredor lá em baixo
Após chegarem ao fim da rampa, viraram a esquerda e começaram a andar. Ainda muito movimento no corredor. Passaram pelo quarto 108, pelo 107 que estava vazio, pelo 106 onde as enfermeiras limpavam. E finalmente chegaram a porta do quarto 105.
Quando levou a mão à porta para abrí-la, Mênem segurou sutilmente no braço de Vânia.
__Dona Vânia...por favor.
__O que foi?
__Por mais estranho que pareça, será que a senhora me deixaria entrar sozinho? Eu sei que eu não tenho esse direito, mas eu gostaria muito, só para ver se ela se lembra de mim. Por favor.
__Não sei te explicar rapaz, mas gostei de você! disse Vânia com um sorriso franco.
__Engraçado...mamãe também diz a mesma coisa! respondeu o jovem com um sorriso bobo.
Vânia riu em resposta ao advogado. Abriu a porta e disse que entraria primeiro e que depois sairia. Passado pouco tempo ela voltou.
__Ela está dormindo!
__Não será melhor então, outra hora?
__Não, não, pode ir lá! Eu vou ter que ir lá no balcão de atendimento agora, e depois eu venho. Pode entrar.
E foi andando corredor afora.
Dominik então viu que não tinha como escapar. Não sabia o que estava para acontecer. Seus pensamentos se misturavam. Não sabia o que pensar. Suas mãos suavam. Seu terno parecia que estava pegando fogo. Nunca tinha sentido isso antes. Mentira. Claro que já tinha sentido antes, mas isso foi há anos atrás. Decidiu entrar.
Empurrou a porta devagar sem fazer barulho. Entrou com cuidado de cabeça baixa. Ao erguer a cabeça viu uma janela aberta, bem grande com duas persianas. Abaixo da janela uma mesa cheia de biscoitos, uma toalha, uma garrafa de refrigerante. Ao centro do quarto uma cama, e sobre a cama repousava uma doce e inocente criatura. Uma garota, que Dominik conhecera e que agora era uma mulher. Uma mulher que apesar de estar sem pêlos na cabeça e no rosto, tinhas traços belíssimos.
Dominik Mênem chegou a meio metro da cama, parou e olhou por alguns instantes para aquela pequena criatura deitada De repente, ela se mexe na cama e começa a abrir os olhos e vê aquele rapaz ali a sua frente.
__Você não mudou quase nada! Tirando esse novo corte de cabelo.- disse Dominik brincando em tom sarcástico.
Com um enorme sorriso no rosto, Rafaela com os olhos brilhando de felicidade, se ajeita na cama, tentando subir e ficar sentada, recostada na cabeceira da cama.
__Eu não acredito. Eu simplesmente não acredito no que eu estou vendo. - disse Rafaela.
continua...